Embora tenha imenso tempo livre, falta-me a inspiração para escrever. Passo metade do dia à procura de emprego ou de uma solução milagrosa para não ter de arranjar emprego, e a outra metade a tentar distrair-me de tudo isso... Por isso decidi brindar-vos com um texto que me dá muito orgulho, que escrevi no âmbito da cadeira de Oficina de Escrita, no primeiro ano do saudoso curso de Estudos Portugueses e Ingleses (Pêêêêêêêêê... I! Pê I! Pê I! Pê I!). É um pequeno ensaio sobre a crise, não a que estamos a viver agora, mas talvez a que indirectamente a causou. É uma teoria minha. A chamada crise do crédito, que como sabemos, se deve ao endividamento inconsequente, é, na minha humilde opinião, fruto de uma crise de valores, na qual a ostentação se sobrepõe à sustentação. Pois é, andou tudo a gastar o que não tinha para mostrar o que não chegava a ter. Já em 1975, Vitorino Nemésio se apercebia, e muito bem do rumo que estávamos a tomar, mas infelizmente, neste mundo há muito poucos com esta visão de jogo...
A CRISE DO HOMEM
“ É estranho que se fale de crise do Homem, precisamente quando a humanidade atinge o mais alto nível técnico historicamente conhecido. “ Técnico”, isto é, favorável à ampla satisfação das necessidades da vida, à cómoda instalação do Homem no seu meio.” (Vitorino Nemésio,
Era do Átomo/Crise do Homem 1975).
É esta afirmação, tirada do livro de Vitorino Nemésio, que, embora tenha sido escrita em 1975, se revela ainda perfeitamente válida, capaz de ilustrar o sentimento geral, o “tom” da cultura, e da sociedade, e fazer questionar a nossa própria consciência sobre o modo como encaramos o progresso e o futuro. De facto, o “mais alto nível técnico historicamente conhecido” traduz-se num mundo repleto de “maravilhas” da tecnologia, pequenas coisas, como telemóveis, écrans planos e a Internet, ou outras de maior abrangência, como a descodificação do genoma humano, a cura para vários tipos de cancro, ou leis que assegurem segurança e higiene no trabalho. No entanto todos os dias somos bombardeados com notícias de ataques terroristas, massacres perpetrados por adolescentes, pessoas que desesperam porque o seu emprego deixou de ser economicamente viável, ou jovens que se dedicam ao furto, e ao tráfico de droga, na busca do lucro fácil, muitas vezes por acharem que não têm outra escolha. De facto, situações como a do famigerado “arrastão”, ou a dos motins que ultimamente têm ocorrido em várias cidades de França dão-nos a ideia que algo está mal, e que devíamos talvez tirar os olhos dos alienantes “reality-shows”, e prestar mais atenção ao que de facto se passa à nossa volta. É para esta crise, a dos valores que Vitorino Nemésio (aparentemente em vão) nos quis alertar há já 30 anos.
Comecemos por definir “progresso”. No dicionário encontramos definições como: “desenvolvimento de algo, ao longo de um período de tempo, transitando de um estado pior para um estado melhor”; ou: “Tendência do género humano para a perfeição, para a felicidade”. Será que a humanidade (toda ela) sofreu o processo descrito nestas definições? Sem dúvida que a maioria dos habitantes do chamado “mundo livre” afirmará, com toda a certeza que sim, porém outros haverá que não partilham deste optimismo. Temos como exemplo (embora algo extremo), a escravatura. Era vista na altura como uma melhoria das condições de vida, uma forma de progresso, e até nos dias de hoje há quem diga que foi uma forma de
globalização, conceito com tantos adeptos, mas que teve óbvias e nefastas consequências para os que nela foram forçados a tomar parte.
É, portanto, a meu ver, absolutamente pertinente a questão levantada por Vitorino Nemésio, e, ao mesmo tempo, uma resposta sobressai: O progresso não chega a todos, e por esta razão é, em alguns aspectos, contraproducente.
Claro que hoje, felizmente, rejeitamos a ideia de que algo semelhante à escravatura pudesse ter lugar. Mas será que não estamos, lenta e sub-repticiamente, a acomodar-nos à ideia de que alguns, dependendo da sua situação económica, social ou geográfica, são “melhores” que outros? Senão vejamos:
Mesmo em países governados pelos arautos da Democracia e da igualdade, (direi mais, principalmente nestes) é inegável a influência do poder monetário e a supremacia das leis do mercado; Tudo é feito tendo em vista o lucro, e neste “mundo corporativo” há inevitavelmente um desequilíbrio entre os que comandam, e os que se submetem, tendo, na prática, os últimos, quer queiramos, quer não, menos direitos que os primeiros.
Na mesma óptica, será que podemos afirmar que os habitantes de países do terceiro mundo têm os mesmos direitos enquanto homens, logo, as mesmas oportunidades que os cidadãos dos países desenvolvidos? Ou, numa menor escala, que, na generalidade, um operário possa ambicionar a mesma realização pessoal que um bem sucedido empresário? A resposta às duas perguntas é pesarosamente negativa.
É nesta linha de pensamento que me atrevo a afirmar que o progresso intelectual está, em certa medida, atrasado, contrastando com os avanços tecnológicos que todos os dias nos surpreendem, e tornam a nossa vida (a dos privilegiados) mais fácil. De facto, os recentes desenvolvimentos na área da medicina, da exploração espacial, da engenharia, as novidades no mundo das telecomunicações, dos transportes, do entretenimento e do modo de vida em geral funcionam, no meu ponto de vista, um pouco como distracções daquilo que devia ser sumariamente importante.
Como se justifica que se gaste mais dinheiro em estádios de futebol, do que em saúde e educação? Mais em armamento e financiamento de organizações militares do que em ajudas aos mais carenciados? Mais em programas espaciais do que em pesquisa na área da agricultura e ambiente? Mas, e esta é a verdadeira questão, será este um problema de gestão governamental, ou seria diferente se as decisões referentes à aplicação dos dinheiros públicos fossem sujeitas a sufrágio universal? Confesso-me pessimista em relação a esta possibilidade.
Vivemos hoje numa sociedade em que cada um vive para si e, na melhor das hipóteses, para os seus, e cada avanço tecnológico contribui, inadvertidamente e ao mesmo tempo para a crise de valores, pois cada novo aumento das comodidades vai satisfazer uns, mas vai ser alvo da cobiça de outros.
Com efeito, se tivermos em conta a definição budista de “felicidade”, ou seja, a ausência de desejo, a Humanidade vive crescentemente insatisfeita, pois chegámos a um ponto em que o lançamento de uma nova consola de videojogos causa nos jovens uma sofreguidão quase comparável àquela sentida pelas vítimas de uma qualquer catástrofe, quando lhes é oferecida ajuda…
De facto, é nos jovens que esta “cultura da cobiça” tem os mais devastadores efeitos, pois a sua vontade é facilmente moldada pelos meios de comunicação, e pela aparente lassidão dos progenitores em incutir valores contrários, que levem os seus filhos a querer “ser”, em vez de “ter”, a crescerem com consciência cívica, em vez de reclamarem alarvemente direitos atrás de direitos.
A partir destes argumentos permito-me avançar a minha teoria que aponta como uma das principais causas dos conflitos que ocorrem em bairros problemáticos do nosso país, ou das tragédias como a de Columbine, nos Estados Unidos, esta inversão de valores, que leva a que aqueles que não podem ter aquilo que querem, e que vêm nas mãos dos outros, a tentar consegui-lo de qualquer maneira, sobrepondo inclusive, os bens materiais à vida humana…
Resumindo, o progresso em si não é indesejável, pelo contrário, tudo aquilo que torne o nosso dia-a-dia mais agradável e mais fácil é naturalmente bem vindo, mas, a meu ver, devíamos prestar igual atenção à evolução do pensamento, das relações humanas, com vista a uma convergência de objectivos por parte de todos. O progresso apresenta-nos cada vez mais possibilidades, mas talvez nos falte discernimento na escolha das que são realmente importantes…
Resta-me concluir que há um longo caminho a percorrer, caminho esse que, na minha humilde opinião passa por uma mudança radical na forma como são educados os nossos filhos, não só em casa, mas também na escola. Há já vários pedopsiquiatras e pedagogos que condenam a maneira como são sacralizadas as crianças hoje em dia, assim como a desautorização dos professores, e até dos próprios pais, perante os “jovens tiranos”. É preciso dar-lhes, desde cedo, um sentido de responsabilidade, uma outra noção do mundo, e da vida, que passe para além do seu próprio umbigo…
Termino com uma frase, que li já não sei onde, mas que acho que representa bem a minha opinião:
“A Humanidade podia ter o mundo na palma da mão, se ao menos conseguisse descerrar o punho…”